#04
Gostaria de abrir a conversa desta newsletter com um assunto que talvez pouco tenha a ver com moda, pelo menos não diretamente, mas que tem muito a ver comigo e, principalmente, com o trabalho que realizo nas redes sociais. Recentemente, passando em análise, entrei em contato com a dinâmica psíquica descrita por Freud como projeção. Segundo o Gemini, recurso de inteligência artificial do Google, “projeção é um mecanismo de defesa inconsciente pelo qual um indivíduo atribui a outra pessoa sentimentos, pensamentos ou desejos que são seus, mas que considera inaceitáveis ou que conflitam com sua autoimagem. Ao fazer isso, a pessoa se isenta da responsabilidade por esses conteúdos, projetando-os no outro e evitando assim o sofrimento psíquico.”
Projeção tem a ver com o trabalho que exerço por aqui porque – e é bem provável que quem projete sequer tome conhecimento disso – estamos sempre dispostos a apontar o dedo para o outro a partir de conceitos/crenças/verdades que são mais nossas que de terceiros. Comentários como “ah, mas isso não tem a sua cara” são fruto de pura projeção. “Nossa, que decepção ouvir isso de você” também o é.
Mas calma. Esse recado não é direcionado para você. Como coloquei no início, ele é para mim mesma. Passei os últimos anos “sofrendo” por conta de uma projeção em cima de uma figura que me aterrorizava toda vez que estava longe, ganhando forma, voz e poder a partir da minha própria construção mental disforme. Uma vez que se aproximava fisicamente, automaticamente se redimensionava e acalmava minhas angústias. Muitas vezes levava alguns minutos ou horas, mas sempre acontecia.
Nossa Barbaridades #4 chega junto com o dia mais esperado do varejo nacional e internacional: a Black Friday. Fico com preguiça quando o tema começa a ser ventilado por aí não porque não goste de uma promoçãozinha, mas porque, via de regra, a gente sempre força um pouco a mão para consumir algo que não necessariamente esteja precisando ou pior: que não necessariamente deseje de fato para si.
Quando compramos temos que considerar o que temos, o que somos, o que gostaríamos de ter e até o que almejamos ser. É complexo mesmo, o que não necessariamente precisa passar por uma elaboração infinita. Comprar com critério é bom, mas pode ser chato. Comprar no calor do momento é divertido, mas pode ser arriscado. Entre um e outro, fico com um mix entre os dois, e sabe por quê? Porque quando a gente se conhece minimamente está apto a tomar qualquer uma das decisões, seja trabalhando na antecipação, seja apostando na emoção.
Duas semanas atrás um canal internacional conhecido por confeccionar listas e rankings envolvendo marcas de moda em geral divulgou uma relação do que chamaram de “produtos mais desejados do ano”. No topo, a brasileira Havaianas e seu chinelo de dedo de borracha, seguido por mocassim Saint Laurent, moletom Cos e até o sutiã Skims – marca da Kim Kardashian – com piercing de mamilo aplicado. Rolou a maior comoção por parte dos brasileiros, que nunca imaginaram verem as legítimas ocupando um lugar de tanto destaque entre pares gringos incensados.
Concordo que a Havaianas surfa uma onda internacional relevante, e minha ressalva não deve ser confundida com desmerecimento do produto nacional, muito pelo contrário. O que não faz muito sentido, na minha opinião, é um mocassim de couro de uma marca francesa ser comparado a um sutiã que é praticamente um sarro travestido de jogada de marketing. Dentre um universo infinito de opções muito pouco recortado, o que exatamente pode ser comparado com o que? E baseado em quais critérios exatamente? É pesquisa qualitativa? Existe um júri de especialistas? São números de venda, receita, lucro?
Dentro da mesma plataforma, a lista anual que mais reverbera entre as audiências virtuais é a que elenca as “hottest brands”, ou as marcas mais quentes da atualidade. Como você definiria uma marca quente? De novo, sem parâmetros claros, fica difícil demais elevar ou rebaixar a importância de determinada marca ou produto.
Em tempo: a plataforma afirma que sua base de dados é a maior que existe no mundo da moda, e considera o comportamento de busca e consumo da audiência dentro e fora de seus canais. Para mensurar a “quentura” de marcas e produtos, sua fórmula ainda incorpora menções nas redes sociais, bem como atividade e engajamento durante um período de mais de três meses. Sigo achando vago e, critério subjetivo por critério subjetivo, também tenho minha própria lista de favoritos. Quer saber qual é ela? Esquece, jamais faria isso! Rs
Finalmente assisti a Depois da Caçada, último filme do italiano Luca Gadagnino, meu diretor de cinema favorito desde Um Sonho de Amor, filme de 2011. Depois do thriller estrelado por Tilda Swinton, ele ainda lançou os muito bem avaliados Me Chame Pelo Seu Nome (2017) e Rivais (2024), entre outros, mas nem precisava. Guadagnino ganhou meu coração 14 anos atrás, quando usou a extraordinária Villa Necchi Campiglio, em Milão, como cenário principal de sua narrativa sobre o amor.
Guadagnino é excepcional exatamente nisso: escolher locações e criar ambientações extremamente sofisticadas dentro de uma realidade possível, não idealizada e jamais perfeita. A mesma lógica se estende para a construção de figurino de suas personagens. No lugar de figurinistas, ele gosta de colaborar com estilistas renomados, sejam eles conhecidos ou não. Para Um Sonho de Amor teve Raf Simons (atualmente co-diretor criativo da Prada, ao lado de Miuccia) assinando as vestimentas; para Queer e Rivais, o escolhido foi Jonathan Anderson (ex-Loewe, atual Dior).
Para Rivais, Anderson considerou o fato de que o tênis, nos Estados Unidos, é um esporte que fomenta o espírito capitalista, e vestiu as personagens segundo esse paradigma, e não a partir dos volumes exuberantes que a gente espera ver numa criação assinada por Jonathan Anderson”, é o que afirma Guadagnino em recente entrevista ao Business of Fashion.
Depois da Caçada tem Julia Roberts no papel principal e, mais uma vez, a projeção de mundo proposta pela narrativa de Guadagnino é tão contundente e convincente quanto as roupas que Roberts veste ou a casa em que ela mora. Talvez seja exatamente esse o grande trunfo do diretor: ao não tratar absolutamente nenhum aspecto de seus filmes de maneira rasa, propondo camadas que se sobrepõem e se contrapõem o tempo todo, ele consegue chegar bem perto de descrever a ambiguidade da condição humana.
Entre a renda da lingerie que ganha a rua e o mix de dourado com prateado, encontre o balanço perfeito entre frivolidade e funcionalidade.















Achei a forma como você falou sobre projeção muito corajosa e elegante, como não poderia deixar de ser, vindo de você. Me fez pensar bastante, obrigada!
Assim como o filme, suas newsletters sempre me trazer camadas para refletir a condição humana.