#05
Feliz 2026! Esta é a newsletter que deveria ter sido publicada na véspera do Natal e que eu, como fundadora, diretora e CEO da mesma, decidi transferir para a primeira semana de janeiro porque tinha certeza que seria uma pessoa melhor escrevendo-a. Em meados de dezembro, com o stress do encerramento do ano, aliado aos preparativos para as festas, me senti um ser sem qualquer tipo de mensagem positiva para transmitir, e achei que você, do outro lado, também estaria sem “saco” algum de encarar o meu texto.
Escrevo do primeiro domingo do ano, precisamente o 4 de janeiro, feliz da vida e totalmente relaxada e empenhada em entregar uma boa mensagem de início de ciclo – ainda que seja domingo, o dia oficial de descanso. O que tenho para dizer tem muito a ver com isso mesmo.
Todo mundo idealiza o momento em que vai parar e finalmente descansar de tudo o que vive o ano todo. Mas será que a gente não se beneficia em manter uma rotina, mesmo que nas férias? Gosto de me arrumar e sair à noite, mas ainda prefiro dormir cedo e acordar descansadíssima para realizar meu treino – a saúde e a manutenção da massa magra desconhecem o conceito do recesso, afinal. Passo o ano todo conectada com minha audiência essencialmente via Instagram, sinto um grande prazer em tirar dúvidas e mostrar o racional por trás de cada look que visto. Será que preciso jogar o celular no mar e não fazer nada disso entre Natal e Ano Novo? Desde o final do ano passado aprendi com uma profissional da área de nutrição a comer o que faz mais sentido para um corpo de 42 anos, o que obviamente acarreta uma vigília constante acerca do que escolho colocar no prato. Será que me sentiria mais feliz se abrisse mão desse rigor na época das festas?
Não é abrindo mão da vida que a gente leva 335 dias por ano que alcançaremos felicidade e paz de espírito durante 30, quando muito. A vida que a gente de fato tem acontece nesses 335 dias em que criamos nossos rituais de amor próprio e investimos, na medida do possível, em ações que nutrem nossa alma e elevam o nosso espírito. Eu não quero me matar para viver só um pouquinho. Quero mais é transformar a minha vidinha comum num enredo digno das melhores férias.
Quando o assunto é moda, não posso entregar a primeira news do ano sem compartilhar a expectativa coletiva (usando aqui o recorte da população fashionista) em cima da chegada às lojas das primeiras coleções assinadas pelos estilistas estreantes em grandes maisons na última temporada de desfiles europeus.
Todas as críticas já foram escritas e publicadas, opiniões foram dadas, todo mundo que curte o assunto já deu seu parecer a quem possa – e até a quem não possa – interessar. Agora, entre o que vimos nas passarelas e o que veremos nas araras e prateleiras a partir de fins de janeiro “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. Ou melhor: o que é sucesso de crítica nem sempre agrada ao público, e o contrário também pode ser verdadeiro. As grandes casas de moda, Gucci, Chanel, Dior, Bottega Veneta, Loewe e Balenciaga, para citar as principais que tiveram suas direções criativas radicalmente trocadas no último ano, que o digam.
A Dior de Jonathan Anderson (ex-Loewe), foi a primeira a soltar imagens da nova campanha e, segundo o termômetro que desenvolvi para tentar entender comportamento de consumo, tudo indica que agradou principalmente a cliente mais conversadora que já gostava da marca, porém não estava muito empolgada, e que ainda não tem certeza se encontrará representatividade na nova Chanel de Matthieu Blazy, por exemplo. Tudo muito romântico e delicado e, para quem torceu o nariz – no caso, essa mesma moça –, até agora nem sinal do sapato com o furo no O de Dior.
Até o fechamento desta edição a Chanel ainda não havia divulgado sua comunicação a partir do olhar de Blazy, que foi sucesso de crítica com sua coleção de estreia no Grand Palais, em setembro, que arrancou iguais aplausos da turma moderna com o desfile Métiers d’Art, que aconteceu no metrô de Manhattan em dezembro último, mas que estava com dificuldade de emplacar a 2.55 amassada ou sua versão com cabeça e pés de girafa acoplados entre as clientes mais tradicionais, ou seja, praticamente o corpo consumidor todo. Eu sempre disse que seu desafio seria elevar a conversa de moda de quem está escorado no status quo, e acho que a marca não tinha mesmo como não olhar para frente, mas se os novos e pouco ortodoxos acessórios seguirão colecionando filas na Rue Cambon, não tenho como prever, ainda que sinta alguma apreensão.
Na minha opinião e indo totalmente na contramão da minha própria expectativa, a Loewe da dupla Jack McCollough e Lazaro Hernandez foi quem melhor alinhou conceito e varejo com o que apresentou em setembro último em Paris. Não preciso ver as filas na porta das lojas para saber com certeza que a bolsa Amazona 180 (ou a polêmica bolsa aberta) será hit de vendas, inclusive porque eu mesma sou candidata a uma. Ou então a Bilbao, modelo tipo tote agênero tingido de tons primários que promete agradar geral. Ao apostarem no conceito de arts and crafts impulsionado pelo antecessor da cadeira, entregarem uma cartela de cores saturadas inusitada, ainda que simples, e criarem acessórios despretensiosamente cool, eles já são sucesso de crítica e vendas sem terem sequer aberto a caixa registradora.
Já a Bottega Veneta de Louise Trotter emocionou com a pesquisa de texturas e tecidos das roupas desfiladas em Milão, mas digamos que os acessórios ficaram em segundo plano em sua primeira incursão como diretora criativa da marca. Não que não fossem bons, é que eles simplesmente não estavam lá em variedade suficiente para serem avaliados. Ou seja, o que chegará às prateleiras ainda é um mistério, mas pensando na importância que a Bottega Veneta conquistou com suas bolsas de intrecciato na última década, muito graças ao trabalho de moda primoroso deste mesmo Matthieu Blazy, arrisco dizer que tanto faz, porque continuará sendo desejo entre iniciados e emergentes também.
Menina dos olhos – e galinha de ouro até a saída de Alessandro Michele – do Grupo Kering, a Gucci sob o comando de Demna Gvasalia rompeu com o padrão ao trocar o desfile por uma première de filme dirigido por Spike Lee e estrelado por Demi Moore, e fez um test drive de tração comercial com a coleção vestida no curta ao levá-la para lojas selecionadas um dia após a comoção cinematográfica. A “turma das modas” foi lá e comprou, mas a gente sabe que a Gucci vive de vender para a fatia do mercado consumidor que está começando a flertar com o mundo do luxo, especialmente na Ásia. A seu favor, o fato de que Demna, ainda que responsável por uma linguagem estética pesada e underground, fez o milagre comercial da Balenciaga acontecer na segunda década do século 21 ao transformar bonés, camisetas e tênis em ícones altamente cobiçados pelas massas jovens.
Daí tem a Balenciaga, que foi quem sofreu a mudança de liderança mais brusca. Do disruptivo e dark Gvasalia para o classicista romântico Pierpaolo Piccioli (sinônimo de Valentino de 2008 a 2024), o produto final é belo e é rico, porém não entrega quanto imagem qual lugar de fato ocupará em meio a placas tectônicas que ainda não estão totalmente acomodadas.
Conclusões aleatórias a que cheguei neste fim de ano:
Continuo não entendendo como posso usar a inteligência artificial em benefício do tipo de trabalho que presto.
Cada vez mais tenho certeza que fazer análise é realmente a melhor maneira de organizar muito bem organizadas as nossas próprias neuroses.
A vivência das pessoas em destinos praianos compartilhada nas redes sociais segue comprovando que o engajamento é diretamente proporcional a inverossimilhança do look oferecido.
Calcinha da virada naquelas tons banais de amarelo, verde, rosa, azul… Tem coisa mais feia? Não sei nem escrever bonito sobre esse tópico, é feio e ponto.
O problema da exposição das crianças ao ambiente virtual – em todos os seus aspectos, do joguinho ao Tik Tok – é tão grave que não apenas os pais não sabem como agir como na maioria das vezes eles nem acham que é com eles.
Dá pra falar sobre vários assunto, dá para transmitir valores e até opiniões sem precisar buscar a lacração. Dispor das artes, por exemplo, é uma belíssima forma de promover questionamentos importantes, pena que as pessoas estão mais interessadas em panfletar do que em ler.
Acho que já falei aqui que 2025 foi o ano em que me apaixonei pelas biografias de Walter Isaacson, porém não estava preparada para Leonardo Da Vinci, lançada em 2017. Confesso que achei que, depois de Musk e Jobs, Da Vinci seria meio arrastado até por conta da época, do tipo de material de pesquisa e da falta de detalhes apetitosos que os revolucionários contemporâneos não pecam em nos entregar.
Errei, ainda bem. Não terminei a biografia ainda, estou quase na metade, mas já posso afirmar que trata-se de uma das melhores coisas que já li, de uma das melhores viagens que já fiz, de um dos encontros mais memoráveis com a história que já experienciei, inclusive fora do sofá. Não apenas Isaacson descreve de maneira apaixonada cada uma das pinturas renascentistas icônicas assinadas pelo maior gênio de todos os tempos, fazendo com que a gente enxergue de outra forma o que já estava cansado de olhar, mas sobretudo porque ele jamais limita a atuação de seu objeto de estudo a uma ou outra coisa.
Leonardo foi artista em sua abordagem como cientista; foi científico a cada vez que queria exprimir uma manifestação artística; usou a narrativa católica como pano de fundo para uma investigação profunda sobre a alma dos que são feitos de carne e osso; precisou aliar ciência a uma curiosidade infinita e uma sensibilidade única para, através de sua contribuição artística e analítica, ensinar à humanidade conceitos que o meio acadêmico jamais conseguiu.
Deixe o brilho dourado para a pele e aposte em looks com textura artesanal e acessórios com uma vibe mais rústica que polida.













Adorei as conclusões!
Lendo hoje, em uma manhã de domingo, essa escrita primorosa! Um verdadeiro presente de ano novo! Obrigada, Ba! 🤍