#07
Mais uma newsletter escrita no trânsito entre Milão e Paris no auge da temporada de moda internacional para o inverno 2026. Não, desta vez não teve Anna Wintour sentada por horas na minha frente aguardando o embarque – ela gosta de pegar o voo que sai no domingo à noite, enquanto eu estou voando na segunda à tarde. Agora, se ela se materializasse nesse momento minha única pergunta seria: Gucci by Demna, yes or no?
Aí é que tá. A pergunta não é tão simples quanto “thumbs up or thumbs down”, e nem mesmo Mrs Wintour se daria por satisfeita de dar uma resposta monossilábica. A Gucci de Demna é menos sobre a gente gostar do que está vendo na passarela – o que já falei anteriormente que é um equívoco em geral, porque gosto é uma questão de repertório, e o ideal é estarmos sempre abertos a ampliá-lo – e mais sobre entender o que as marcas de moda precisam em 2026.
Elas precisam de coisas diferentes. A Ferragamo precisa de um estilista talentoso que eleve sua alfaiataria e seus acessórios dentro de um certo parâmetro de inventividade; a Bottega Veneta precisa de um designer com habilidades técnicas de artesão e interesse por tecnologia; a Gucci precisa do Demna.
Polêmico, controverso, dependendo do ponto de vista imoral e até ilegal, ninguém tira dele sua habilidade de ler a geração Z e conseguir transformar moda em veículo de constituição de identidade. Quem tem 16 anos e começa a se relacionar com o mundo, ouvir música, encontrar os amigos, usar o gosto pessoal para pertencer a algum grupo, geralmente busca símbolos sacramentados que vão ao encontro de suas crenças. Desde os anos 80 e da explosão do movimento street esses símbolos podem ser encontrados em marcas de luxo, e a Gucci está ali, no primeiro lugar do pódio aguardando de braços abertos esse contingente gigante de gente que gosta de pensar que está fazendo contracultura mas que, no fundo no fundo, sonha mesmo é com um boné ou um tênis de grife.
Aterrissando novamente no planeta terra, ou melhor, na passarela, vamos analisar a roupa que ainda é apresentada com seu intuito inicial: agradar, vender e vestir. Considerando apenas a semana de moda milanesa, encerrada no domingo, o destaque que aponto é o do desalinhamento do eixo quando o assunto é o fechamento da roupa. Ou melhor, como a maneira de construir alfaiataria foi subvertida e os estilistas e marcas estão cada vez mais propensos a reinventarem o molde de tecido plano.
A Prada sempre entregou competência no assunto, já que sabemos que Miuccia e sua dupla Raf Simons adoram usar o forro como camada exterior, sobrepondo tecidos sem respeitar as hierarquias previsíveis. Desta vez, enquanto saias de organza funcionavam como filtros para forros bordados com pedrarias, jaquetas e blazers carregavam seu “ouro” na parte interna, deixando à mostra algo como o tecido puído de uso. Tudo absolutamente calculado e cronometrado para não deixar dúvidas de que estamos talando de alta moda, e não de roupa velha.
Já a Ferragamo sob gestão criativa de Maximilian Davis usou o rigor dos uniformes oficiais da marinha para levar para seu desfile peças que carregavam o movimento do mar. No lugar de vestirem o corpo de maneira estática, possuíam palas soltas e abotoamentos desencontrados dos eixos x e y justamente para revelarem fendas e decotes e proporcionarem uma fluidez que normalmente não encontramos nesse tipo de construção rigorosa.
Até mesmo a Dolce & Gabbana, cuja expertise com o tecido plano está mais para a escola clássica que para a disrupção, ousou e replicou nas costas o mesmo abotoamento duplo que está na frente do blazer oversized.
O mundo em geral está virado ao avesso e, no mundo da moda, a conversa parece estar mudando de eixo também. Enquanto algumas marcas entendem que não se trata mais de pensar apenas na roupa pela roupa, outras ensaiam seus primeiros movimentos de desconfiguração daquilo que a gente sempre entendeu como o único referencial.
Comecei a cobrir semanas de moda internacionais lá por 2010 mais ou menos (aliás, preciso saber exatamente que temporada foi aquela) e, desde então, me sinto praticamente convocada por forças maiores a viver periodicamente esse fenômeno místico que é passar dias sequenciais absorvendo o máximo de informação e produzindo o máximo de conteúdo dentro de um tempo e espaço totalmente singulares.
Tudo é extraordinário e exaustivo em igual medida, mas depois de tantos anos acho que tirei algumas lições para tornar a experiência mais suave para corpo e mente, e que enumerei abaixo:
1) Para quem adora a previsibilidade de uma rotina, o que acontece aqui é uma prova dos nove. Desta vez, decidi que estabeleceria horários fixos para treinar – nem que dentro do quarto do hotel, com bands elásticas que trouxe na mala – e também para me alimentar segundo os hacks que aprendi em consultório com a nutricionista. Das vitaminas diárias à ingestão da proteína e café turbinado, tudo precisa acontecer conforme a orientação. Saber que tenho horário para treinar e me alimentar me ajuda a manter a sanidade em meio ao caos e à pressão.
2) Fazer a semana de moda completa em Milão e depois emendar na de Paris é praticamente começar uma maratona do zero quando a energia já está no pé. No meu caso, decidi literalmente configurar duas personas. Faço uma mala só para Milão, com as roupas que sei que têm a cara da cidade e do que vou encontrar por lá, e outra com os looks parisienses. Quando chego no segundo hotel nem abro a mala milanesa, economizando espaço no armário e sentindo o prazer de ter um guarda-roupa zerado e alinhado com a vibe da cidade para vestir.
3) Meu horário feliz é sempre de manhã. Tudo é mais bonito, as pessoas são mais legais, minha vontade é de mandar coraçãozinho para todo mundo das 7h às 12h. Depois viro abóbora e sou engolida pelo cansaço e pela falta de carisma, então aproveito o fuso horário a favor de quem está na Europa para escrever com calma meus textos, responder às dúvidas de quem está no Brasil e criar o que preciso criar preferencialmente nesse intervalo de horário.
4) Capricho na escolha da rotina de skincare que trarei para a viagem. Desta vez, e considerando que o clima no Hemisfério Norte pede ainda mais cuidado quando o assunto é hidratação, incluí um ou outro produto já testado anteriormente, bem como um novo tipo de hidratante corporal em forma de óleo. Aplicar produtos novos, assim como vestir roupa nova, promove uma satisfaçãozinha em meio a uma rotina corrida, então use esse momento fundamental do seu dia para se permitir sentir esse prazer.
5) No primeiro momento possível da chegada eu passo em um mercadinho e compro algumas garrafas de San Pellegrino e uma barra de chocolate 70%. O primeiro porque água com gás é meu combustível e não posso não tê-la no quarto; e o segundo porque um pouco de doce por dia é meu combustível e não posso deixar de tê-lo no quarto. A porção é um ou dois quadradinhos à noite, após o jantar, e água a gente pode tomar à vontade!
Estamos no quinto episódio de Love Story: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette e, claro, também fui acometida pelo surto de culto à história do casal e a seu estilo contundente que marcou para sempre a história. Na verdade, eu tinha meus 15 anos quando estavam no auge, e também era obcecada pelas roupas e por acompanhar nas revistas os flagras dos passeios do casal com o cachorro por downtown Manhattan e de suas não raras discussões em público. Quando morreram, estava passando um mês de férias em Boston, portanto vi praticamente in loco cada minuto da cobertura da tragédia em tempo real. Por anos guardei a Vanity Fair que continha uma de suas últimas fotos juntos na capa, e dezenas de vezes li o texto que descrevia com precisão os últimos momentos de vida do casal, incluindo a passagem de Carolyn pela manicure – e a consequente indefinição da escolha da cor do esmalte – horas antes de pegarem o fatídico voo para Martha’s Vineyard.
Ryan Murphy, produtor da série, é muito competente em recriar esse passado recente que está na memória de gente da minha idade – eu, pelo menos, fiquei impressionada com o que ele fez em Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story, minissérie ficcional que reconta o assassinato dos pais pelos dois filhos em Beverly Hills no fim da década de 80.
Na verdade, a narrativa de época de Murphy é meio chocante, e talvez por isso a gente fique tão preso ao que está vendo. Mais do que a semelhança dos atores com as personagens que inspiraram seus papéis, acho que ele consegue resgatar na nossa memória a nostalgia de um momento que parece que foi ontem enquanto sutilmente nos joga na cara que, na verdade, já se passaram quase 30 anos.
Se você reparar, o minimalismo de Murphy, ou de Love Story, é quentinho, é amarelinho, é um colo de mãe para quem está vestindo roupas tão inteligentemente simplificadas e frequentando ambientes tão hospitalares, bem como mandava a cartilha estética dos anos 90.
Se a “story” de Kennedy e Bessette era mesmo de “love” ou se era apenas uma embriaguez de egos inflados, jamais saberemos, mas o que sabemos com certeza é que olhar para essa história hoje é como recuperar no passado um amor, uma regatinha branca, uma trilha sonora, uma mesa de metal que a gente certamente também viveu.
Um apanhado do que já vi por aqui e adorei, entre o urso que volta a ser cool e a bolsa que foi pensada para ser usada aberta mesmo – e isso é um truque óptico, porque na verdade ela fecha sim.















Adoro seus textos longos por aqui. Você devia escrever mais.
Estou amando acompanhar por aqui! 💕💕💕💕