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Meu plano para a nona edição da Barbaridades era trazer alguma pensata em cima da minha visita à SP-Arte, que aconteceu entre os dias 8 e 12 de abril em São Paulo, capital. Não consegui, e não foi porque não fui capaz de chegar a uma conclusão qualquer. Não tive insight porque não vi obra alguma. Estive na feira na quarta-feira de pré-abertura, data fechada para convidados do evento e dos expositores. Ali passei algo como três horas concentrada na gravação de um vídeo sobre uma peça de mobiliário lançada por um player importante do universo do design, e de outro que consistia em comentar de maneira espontânea e sem roteiro os looks de quem circulava pelos corredores. Fiquei satisfeita com ambos os conteúdos, mas entre gravar e me dedicar minimamente aos encontros fortuitos com gente conhecida, eu literalmente não olhei para uma única parede.
Depois de quarta-feira não consegui mais brecha na agenda para voltar à Bienal e, de fato, usufruir do melhor que a feira tem a oferecer, e talvez a culpa da falta de insight seja, portanto, do meu alto contingente de compromissos. Mas fiquei aqui pensando quantos dos milhares de visitantes que pisam ali estão de fato buscando que a arte lhes traga uma faísca de iluminação ou inspiração? Quantos leem as plaquinhas que acompanham as obras para ao menos saber quem é o autor daquilo que lhes interessou num primeiro momento?
A dinâmica social que se configurou num evento desse porte por si só já justifica muitas das presenças desinteressadas, e tá tudo bem também. Todo mundo sabe que arte virou território especulativo e ferramenta altamente valiosa no jogo de conquista de pertencimento. Só lamento, de leve, que se perca o interesse em usá-la como objeto de entendimento do mundo, de autoavaliação e, por que não, de automodificação também.
Tantos pontos de vista ali exprimidos, tão pouco interesse em atentar para eles. E isso não é só sobre a SP-Arte, é sobre tudo aquilo que carrega uma vocação espiritual primordial e que já derivou para um mecanismo que mais tem a ver com parecer do que ser.
A turma que trabalha comigo nos bastidores da produção do meu conteúdo já me perguntou algumas vezes quando eu falaria sobre a chegada da Bershka ao Brasil. Toda vez respondo a mesma coisa: não tenho o que falar, desconheço detalhes. Tá bom, eu sei que ela passa a integrar o corpo de grandes redes internacionais de varejo, que entende que está na hora de fincar bandeira por aqui também, mas a comunicação da inauguração da operação da Bershka em si não me impactou com profundidade porque ela nem tinha que impactar, e é justamente esse posicionamento que me fez refletir sobre o papel do que é entendido como fast fashion nos dias de hoje.
Tudo começa com o próprio conceito de fast fashion. O que era disruptivo e inovador no início dos anos dois mil se tornou sinônimo de tudo o que a turma da moda não deseja mais ser, ainda que, na prática, o seja. Em 2026, ninguém mais quer comunicar que vende roupa descartável, concebida a partir de valores voláteis e construída com matérias-primas e processos mais ainda. Mas logicamente sempre houve e sempre haverá espaço para quem quer comprar uma boa peça por um bom preço, e é por isso que Zara, H&M, Bershka e afins sempre terão um belíssimo share ao sol no universo do varejo. O tipping point está no como contar isso para o grande público.
A Zara traçou uma estratégia arrojada e, na minha opinião, brilhante. Mirou no premium de nicho. Independente do produto, sua maneira de vendê-lo é tão semelhante com a de qualquer marca francesa de luxo. Com os melhores fotógrafos, stylists e colaboradores no pay check, investiu em construção de valor percebido, transformando qualquer blusinha simples num item de moda, de desejo, de alto valor agregado. Lançar colaborações com nomes fortes também ajuda, mas repare que ela vai além ao pensar em artistas plásticos em ascensão, como o brasileiro Samuel de Sabóia; ou estilistas experts em couro cult, como Willy Chavarria, só para citar as duas parcerias mais recentes.
Não é sobre se associar a nomes que farão fila na porta de gente desesperada para ter uma versão baratex de sua grife favorita - é sobre construir um portfólio criativo que chancela a pretensão educativa por trás da gigante. “Quero te mostrar como a gente pensa elevado”, é a mensagem que leio a partir dessa estratégia, e de quebra os precinhos vão aumentando e a gente vai entubando sem grandes dificuldades.
A Bershka, no caso, vem justamente para ocupar esse lugar do varejo rápido para a turma de 20 e poucos que a Zara deixou meio de lado em detrimento de uma turma mais “educada” e mais monetizada também, oferecendo a modinha esperta de ocasião para quem começa a se emancipar dos pais. Não fui convidada para a festinha porque eles nem querem que eu esteja por lá - bom saber que tô no outro grupo (risos).
Mas para a inauguração da H&M no Brasil eu fui convidada e testemunhei um verdadeiro cross cultural entre marca entrante e destino. Os suecos mergulharam nos nossos códigos e convocaram um casting versátil para estrelar uma campanha especial fotografada por Rafael Pavarotti, paraense de nascimento e atualmente o grande nome da fotografia de moda internacional. Eles também se apropriaram da comunicação de metrôs e outros aparatos públicos, além de armarem um show a céu aberto no auditório do Ibirapuera com nomes do cacife de Gilberto Gil e Anitta, só para deixar bem claro que sua caravana chega com força e com fôlego de quem quer falar a nossa língua.
Alguém falou em roupa em algum momento? Não falou porque pouco importa. Quem quer vender muita roupa, hoje em dia, precisa ter bem definido qual história quer contar e para quem. O resto só vem!
Da roupa mais em conta para a menos. Outro objeto de estudo é a vocação da alta-costura nos dias de hoje. Pensando que o métier nasceu para vestir as damas da sociedade numa época em que o mundo, como um todo, estava longe de conhecer a linha de produção, e que cada indivíduo que tivesse acesso a tais serviços geralmente buscava o criativo que melhor soubesse traduzir em forma de vestimentar a sua personalidade, o que se vê hoje em dia é bem diferente.
A alta-costura, ou o criar e costurar sob demanda, é menos sobre quem procura e mais sobre o procurado. Se você pensar, esse mercado tão especializado em que o céu – e os valores – são o limite, segue mais vivo que nunca porque ele entrega em bandeja de ouro aquilo que antes existia em fartura e que hoje é escasso: assinatura.
Ninguém mais precisa ir a um costureiro para se vestir, e a ideia de ter algo exclusivíssimo, feito apenas para você, restringiu-se quase que somente às noivas, sendo que nem elas são tão exclusivas assim, visto que dez entre dez vestidos que observamos são mais genéricos, impossível.
Escolhe-se a marca - e o autor - cujos códigos deseja-se apropriar como sendo seus, porque sim, eles estão mesmo à venda. Ao contratar um desenho que se transformará em uma peça bordada à mão por centenas de horas, o que está se comprando é um valor, uma chancela se isso for interessante para o indivíduo por qualquer que seja o motivo. Estilo pessoal, aquele que traduz aquilo que de mais pungente se tem por dentro, não é mais ali exatamente que a gente encontra.
Tenho fascinação pelo Salone Internazionale del Mobile di Milano, evento este que nunca tive a chance de frequentar, mas que gostaria, ainda que não seja uma especialista em design de mobiliário e nem trabalhe com interiores. Meu interesse, inclusive, está muito mais nas narrativas construídas na hora de apresentar os produtos que nas peças em si.
De uns anos para cá, o que temos observado é um crescente assédio das marcas, incluindo as de moda, para se juntarem ao circuito e desenharem histórias dinâmicas que posicionam seus valores e crenças para bem além da tração comercial que suas linhas comerciais impliquem. A Miu Miu articulou um clube do livro na ocasião, por exemplo, reforçando sua vocação como empoderadora da força intelectual feminina.
Já a Louis Vuitton estendeu um tapete monumental no Palazzo Serbelloni, em uma iniciativa colaborativa com estudantes da Academia de Belas Artes de Brera. A marca possui a coleção Objets Nomades, focada em itens para a casa muito especiais, ainda que nenhum deles esteja apresentado ali naquela ocasião específica.
Situação semelhante à da Hermès, dona de uma linha maison bem desenvolvida, mas ainda assim não se limita a ofertar as peças tal como numa simples mostra. A marca francesa elaborou uma cidade abstrata de objetos cuja cenografia organiza móveis e objetos de couro se deslocando em um percurso de estruturas modulares, algo que esbarra no teatral e no performático.
O que podemos aferir dessa movimentação toda é que, luxo, atualmente, não se limita apenas a uma manufatura muito particular ou uma matéria-prima muito sofisticada. É sobre a associação com o ambiente artístico e a produção intelectual.
Chegar nesse nível de contação de história não é para qualquer varejista que tem a pretensão de produzir uma peça de roupa ou um acessório que até parece similar ao da grife quando observado pelo prisma genérico das redes sociais.
A distinção precisa ser estrutural e conceitual, precisa ocupar espaços particulares e envolver as pessoas de dentro para fora. Entregar embalagem ficou fácil demais nos dias de hoje.
Aberta a temporada dos conjuntos peludos e dos tons saturados que animam beges e terrosos - e não esqueça das táticas de hidratação profunda da pele!
















Bárbara é fora da curva! Sempre trazendo perfeitas colocações.
Melhor news 🤎