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Têm assuntos que viram discussões coletivas entre gente que nem se conhece, e foi exatamente ao que assistimos de camarote no último mês graças à repercussão de parte dos desfiles que aconteceram na primeira edição do Rio Fashion Week, ocorrido entre 14 e 18 de abril. Um texto opinativo publicado na Folha de São Paulo semanas depois apontou quais os looks que, em teoria, teriam sido copiados por marcas nacionais a partir de desfiles de grifes internacionais, o que gerou uma polarização descomunal entre defensores da moda nacional a despeito da hipótese da cópia e promotores da crítica da moda sem filtro e sem vieses.
Bom, ânimos acalmados e assunto esfriado, o que sobra disso tudo é que, na minha opinião, a moda nacional está sim vivendo um período de crise criativa. A concorrência é grande; os grandes players de varejo internacionais estão tomando o mercado de assalto; quem vende à beça não exatamente vende originalidade. O que está acontecendo é que, quem sempre foi sinônimo de autoralidade, está inseguro, para não dizer desencorajado, de ousar e criar a partir do seu instinto mais visceral.
É preciso ter coragem e confiança para criar. É preciso ter espaço, se sentir livre. É preciso poder navegar em um ambiente fértil, receptivo. É preciso bancar a sua criatividade – muitas vezes, não se pode. O custo fixo é alto, a receita é mais rarefeita do que já foi um dia, a competição com a imagem-desejo que cruza fronteiras e fica sendo promovida em looping na rede social é absolutamente desleal.
Quem produz moda vive uma crise criativa porque o consumidor também vive – está cada vez mais difícil para o grande público não se encantar pelo que é mais parecido com o que é feito lá fora, em contrapartida a se educar e afinar o olhar a partir do que é produzido de maneira genuína por aqui mesmo. A situação é mais lamentável que condenável, infelizmente.
Falando em criação original… Maio foi também o mês da temporada de desfiles cruise, ou seja, dos eventos que acontecem em diferentes pontos do globo com o objetivo de esquentarem a conversa dos grandes players de moda internacionais, que apresentam na ocasião sua coleção cruzeiro, ou resort. Inicialmente, o intuito de tal rotina era oferecer um guarda-roupa de prêt-à-porter para as férias de verão das clientes de marcas como Chanel, Dior, Gucci e Louis Vuitton.
Quando ingressei no jornalismo de moda, em meados da primeira década do século 21, as cruise collections se estabeleceram como uma oportunidade para as casas de moda reunirem clientes, imprensa e formadores de opinião e a eles entregarem uma versão um tico mais comercial do que levavam para Milão e Paris nas semanas oficiais a partir de uma viagem temática cuja programação compreendia festas, jantares e passeios turísticos.
Em 2026, meus caros, a coisa toma oficialmente outra proporção. Cada vez mais as marcas de luxo precisam mostrar quão forte e poderosa é sua tração como monopolizadoras da conversa de instante. Em outras palavras: não basta fazer roupa bonita, não basta ser criativo, não basta organizar passeio de barco ou jantar dançante. É preciso fechar a Times Square, como fez a Gucci para o desfile-espetáculo do último dia 16 de maio; ou então parar o LACMA, museu de arte mais importante de Los Angeles, e tratar seu show com os requintes de um set de cinema hollywoodiano, a exemplo da iniciativa da Dior, uma semana antes. A Chanel levou centenas de pessoas a Biarritz, na costa basca, remontando o cenário encontrado por Coco Chanel quando inaugurou sua primeira boutique de alta-costura, quase um século antes.
De roupa atoalhada para levar na mala do cruzeiro aos números bilionários de alcance medidos pelas redes sociais sem escalas. Hoje, a conversa gira muito mais em torno do potencial de entretenimento do que das propostas de vestir, calçar e etc, até porque as roupas seguem sendo um espetáculo à parte, mas sobre isso ninguém quer gravar muito reels não — difícil demais competir com um Tom Brady na passarela viralizado na rede vizinha.
Nada faz um estoque de loja esgotar tão rápido quanto uma bela colaboração entre uma grife de luxo e uma grande rede de varejo. No mês que passou vimos – ou melhor, nem chegamos perto de ver – a coleção coassinada entre H&M e Stella McCartney sublimar no ar no minuto em que foi disponibilizada online via site ou aplicativo da primeira. Nem mesmo quem colocou o despertador para tocar conseguiu comprar um moletom de unicórnio para chamar de seu.
Fenômeno parecido se deu poucas semanas depois, quando a Havaianas lançou sua parceria com a estilista francesa Isabel Marant, promovendo filas quilométricas em busca dos pares de borracha em versão tie-dye ou acolchoados e enfeitados com tachas, ambos recursos decorativistas de apelo boho através dos quais a designer construiu desejo universal para bem além da Rive Gauche.
Nenhuma sacada, no entanto, foi melhor que a reunião da relojoaria suíça centenária Audemars Piguet com a americaníssima Swatch. Nos últimos anos, enquanto a primeira soube tornar sua assinatura – o modelo de caixa octogonal Royal Oak – cada vez mais desejável, sobretudo entre mulheres fashionistas, segmento tradicionalmente pouco interessado em mecanismos complexos de medição do tempo, a segunda foi ficando cada vez mais cansada ao não propor praticamente nenhum gatilho de desejo para seus relógios de borracha na última década inteira.
O pulo do gato foi o anúncio da parceria, que causou frisson logo de saída, visto que toda a população aficcionada pelo Royal Oak imediatamente sentiu que finalmente poderia ver algo similar no pulso, seguido pela apresentação do produto, um modelo de bolso (reforçando essa parte: DE BOLSO) feito de biocerâmica batizado Royal Pop, já que é todo tingido de tons saturados engenhosamente combinados entre si.
Criar o desejo e imediatamente recolhê-lo no bolso – e o trocadilho aqui é mais que válido – é uma estratégia brilhante porque assegura a manutenção do sonho pelo exemplar original de milhares de dólares enquanto não o disponibiliza de fato à conversa popular. Para isso, o efeito placebo precisa ser interessante, portanto nenhum parceiro seria mais adequado que a Swatch, já que a marca também carrega uma assinatura própria: cores sortidas e o uso do plástico no lugar do metal.
Em se tratando de fomento do desejo de marca, entregar seus códigos-chave de bandeja através de uma versão baratex nunca foi a melhor estratégia; fingir que entrega, no entanto, é da hora!
Engana-se quem acredita que pegará comigo dicas de filmes fashion ou seriados sobre o mundinho da moda. Até gosto, assisto a todos, mas me sinto cada vez mais seletiva quando o assunto é entretenimento e cultura porque o que me interessa, definitivamente, é aquilo que me ensina, me faz pensar e me modifica – e que até pode entregar uma estética superelegante e falar de moda, mas não apenas.
Foi o que senti ao final do sétimo episódio de DTF St.Louis, da HBO Max, estrelado pelos excelentes Jason Bateman e David Harbour. A trama se desenrola a partir da dinâmica entre três pessoas quase medíocres, com trajetórias de vida relativamente insignificantes, em uma cidadezinha genérica nos arredores de Chicago, nos EUA.
O estômago começa a embrulhar aí porque é impossível não deprimir – aka se identificar em algum grau – com o trio, mas o que começa com um mal estar se transforma ao longo da narrativa no testemunho de um amor real, forte e profundo, e entre os indivíduos mais improváveis entre as possibilidades combinatórias disponíveis.
A moda costuma chegar ao cinema ainda com o brilho da passarela, mas dois filmes propõem rotas bem diferentes, e complementares, para olhar a indústria por dentro.
Em Couture, Alice Winocour usa a Paris Fashion Week como pano de fundo para uma história sobre vulnerabilidade. Angelina Jolie vive uma cineasta que descobre um câncer em plena semana de moda; ao lado dela, uma modelo sul-sudanesa em começo de carreira e uma maquiadora de bastidor. O desfile não é protagonista. O que interessa à diretora são as relações que acontecem nas margens da passarela, longe do flash. Um retrato delicado de três mulheres dentro da mesma indústria com experiências radicalmente distintas, que só tem a ganhar por não tentar explicar demais o que mostra.
I Love Boosters, de Boots Riley, vai na direção oposta com a convicção de quem já sabe exatamente o que quer destruir. Com o humor ácido que é sua marca registrada, o diretor acompanha um grupo de shoplifters liderado por Keke Palmer enfrentando uma magnata da moda vivida por Demi Moore. A estética é vibrante, as situações são absurdas e a intenção é cirúrgica: desmontam-se ali, com prazer quase indisfarçável, práticas que a indústria normaliza há décadas, com os desconfortáveis exemplos: exploração de mão de obra, plágio de design, concentração de poder econômico nas mesmas mãos de sempre.
Um filme olha para as pessoas que habitam a moda; o outro, para o sistema que as mantém no lugar. Assistir aos dois seguidos é quase um exercício de saúde mental para quem trabalha no setor.
Do relógio que é uma verdadeira joia à versão pelúcia da oncinha, a graça é editar segundo a originalidade – e o bom humor – em busca do look que entrega linguagem de moda e despretensão ao mesmo tempo.














concordo muito com seu pensamento sobre a falta de criatividade da moda nacional! mas acredito que debater o assunto é mais que importante, é essencial! porque ajuda a melhorar a percepção dos próprios consumidores. consumidores mais informados são consumidores mais exigentes, consumidores mais exigentes consomem melhor! uma coisa puxa a outra!
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