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Seja bem-vindo à nossa décima segunda newsletter, ou a Barbaridades que celebra um ano de conteúdos mensais escritos, compartilhados há 12 meses com quem gosta de se aprofundar nas minhas pensatas sobre diversos assuntos, especialmente moda. Desde o início decidi que, até segunda ordem, esse espaço não seria monetizado de forma alguma, funcionando de fato como um exercício de desenvolvimento de texto livre para atender tanto o meu desejo de escrever mais quanto a vontade de vocês de terem a chance de me ler em um espaço para além das redes sociais.
Posto isso, em primeiro lugar preciso agradecer pelo interesse e energia depositada em abrir meu e-mail e dedicar minutos preciosos do seu dia a ler o que tenho para dizer; em segundo, nada mais justo que essa edição especial seja dedicada a temas que vocês me trouxeram. No lugar de decupar a pauta que havia programado para o mês, decidi que ensaiaria em cima de perguntas ou sugestões enviadas pela minha base de leitores e transformaria minhas sessões fixas em ensaios aleatórios a respeito de curiosidades de vocês.
“Drama fashion” é um dos tópicos que chamou a minha atenção, por exemplo. Fiquei pensando no assunto e me esforçando muito para conseguir ser solidária à dor de dez entre dez mulheres que, vez ou outra, se encontram sem ter nada o que vestir de manhã (mesmo tendo o guarda-roupa abarrotado); ou que insistem em usar aquilo que elas sabem que não funciona para elas; enfim, aquele drama. Chego à conclusão – e essa frase será impopular, já aviso – que não tenho drama fashion não… Não porque ache que sou melhor que alguém, apenas porque já me dediquei tanto ao assunto a nível racional que não sobrou muito espaço para crises no vestir.
Já incorporei de uma vez por todas que não gosto de usar o colo à mostra e não tem publi ou tendência que me faça agir diferente – raramente vocês me verão com blusa de alcinha fina ou tomara que caia fora da praia. Costumava manter as coisas no guarda-roupa achando que um dia ia precisar, mas cheguei à conclusão que essa precaução só me fazia insistir em vestir aquilo que não tinha mais sentido para mim, e daí sim eu errava no look. Por último, mas não menos importante, já larguei mão de sofrer por ser a pessoa mais arrumada ou fashion do lugar. Meus amigos já me conhecem, meu marido está mais que acostumado, quem nunca me viu certamente enxerga primeiro minha confiança, depois meu chapéu estranho, então tanto faz o que achou da minha roupa. Sem drama!
Quão simplistas podemos ser nessa hora não é mesmo? Querida, você tem toda razão, não existe pergunta pior, especialmente para quem leva construção de estilo a sério e entende que a vestimenta é sim uma forma de comunicação.
Por muitos anos me descrevia com o “clássica com um twist”, o que explicaria para leigos que era/sou adepta de peças essenciais, mas que não me contento apenas com o básico, preciso de algo a mais. Conforme fui mergulhando mais e mais no universo conceitual da moda percebi que “clássica”, “fashionista”, “básica”, “estilosa” e outros são nomenclaturas extremamente reducionistas – ninguém é “só” uma coisa, outra ou um mix de duas e, mesmo se for, quão abrangente pode ser o conceito de clássica, ou de estilosa?
Estiloso é quem consegue criar uma linguagem visual própria, repleta de códigos pessoais de fácil reconhecimento e geralmente coesos entre si. A pessoa pode ser estilosa dentro de um universo decorativista, por exemplo, ou então esportivo, ela pode ser tão estilosa que a gente sequer consegue enquadrá-la num moodboard específico e por isso mesmo cheguei à conclusão que sou contra a categorização do jeito de vestir.
Tá certo que muitas vezes a gente precisa descrever alguém, colocar em poucas palavras o que está enxergando, e daí entendo que precisaremos usar a expressão “ela é 80s” para deixar claro que, provavelmente, a pessoa privilegia volumes e construções mais amplas, como se fazia na década de 80. Mas evito, porque reduzir alguém a uma década, uma cartela de cores, uma silhueta, um grupo, é olhar com muito pouca profundidade sobre uma personalidade que, muitas vezes, é complexa e possui várias camadas de expressão.
Fazendo aqui um breve exercício de autoanálise, se tivesse que dissertar sobre a forma como gosto de me vestir hoje, diria que tenho predileção por silhuetas amplas, por pele coberta e peças de construção elaborada e volumétrica, autoportantes independentemente de estarem vestidas no corpo. Priorizo texturas e tramas sofisticadas no lugar de referências hiper realistas ou padronagens repetitivas; valorizo tecidos complexos, tons não saturados ou, quando saturados, combinados a outros de caráter sóbrio. Gosto de decorativismos chancelados pela história, caso contrário prefiro o essencial, de preferência pensado e trabalhado com requintes de algo especial, o que os torna interessantes especialmente para quem é versado na linguagem fashion. Roupa de facílima leitura aos olhos do grande público me interessa menos que aquelas que carregam uma mensagem subliminar, um ponto de vista ou uma carga conceitual que, no melhor dos mundos, pode até emocionar.
Se você reparar, não descrevi apenas a “cara” das peças que gosto de vestir, acho que compartilhei valores meus, tentei ilustrar um pouco da minha essência, revelei um pouco de quem sou – ou busco ser. Estilo é sobre isso, nunca foi só sobre as roupas.
Vestir-se para as redes sociais. Eis um tópico supercontemporâneo, visto que até mesmo assistir ao jogo do Brasil na Copa usando uma simples camiseta amarela caiu completamente em desuso – é preciso lacrar com o look, ou melhor, ele precisa ser material instagramável. Iria além e afirmaria que o fenômeno não se restringe apenas ao jeito que as pessoas se vestem, antes fosse. Casar, ter filho, mudar de casa, tudo precisa implicar em fotogenia, likes, compartilhamentos e afins.
Começarei fazendo uma mea-culpa. Salvo raras exceções, evito vestir preto quando preciso “vender” uma determinada peça de roupa, ainda que seja a cor mais curinga e comercial que existe. Através da tela do celular, o preto não imprime textura, profundidade, não cria o mesmo desejo da roupa clara ou colorida. Pode-se afirmar que eu me visto para “funcionar” para quem me acompanha do outro lado? Talvez, mas o buraco é mais embaixo.
O que a gente tem visto é uma certa obsessão pela montação em si, apenas porque, sem ela, fica mais difícil de ser notado mesmo. O objetivo aqui não é se destacar em meio a um grupo durante uma festa, um evento. É se sobressair frente a milhões de pessoas relativamente parecidas que fazem praticamente a mesma coisa que você – e, segundo estudos, você tem exatos três segundos para isso. Não existe nada que eu possa falar em três segundos que faça meu conteúdo viralizar e, visto que aparecer pelado não é uma prática aceita, só nos resta dominar muito bem a arte da comunicação visual, ou seja, causar impacto imediato com uma imagem, uma roupa, um cenário.
O jogo é para fortes, não pense que não. Quem não tá disposto nem entra na disputa, o que muitas vezes implica em personalidades extraordinárias que simplesmente não têm a menor paciência de frequentar esse ambiente e se expor dessa forma. Quem fica é porque tem estômago, e não porque tem gosto ou estilo necessariamente. Pode-se afirmar que, hoje, as referências são piores e mais vazias se comparamos com tempos em que nada disso existia? Com certeza, até porque é mais uma questão de fluência na ferramenta que na arte de se produzir, criar ou contar uma história.
Entrei na redação da Vogue como estagiária em maio de 2005. Naquela época, a última página da revista, publicada mensalmente, era dedicada a um único acessório, geralmente uma bolsa, sapato ou bijoux muito especial, que aparecia fotografado com destaque na seção Last Look. O que a editora de moda escolhia para aparecer ali geralmente esgotava na loja – a gente ouvia dos vendedores que as pessoas apareciam com a revista na mão e davam cabo do estoque do produto, não importa quantos dígitos custasse.
Mais de 20 anos se passaram e, se você quiser saber, as pessoas continuam se comportando da mesma forma, o que mudou foi apenas o canal – além da velocidade, é claro. Dependendo da influencer que usar a nova bolsa da Gucci, é bem provável que, de hoje para amanhã, ela já esteja sold out. O efeito desejo causado por uma imagem eficiente a partir de uma chancela de reputação é irresistível, sempre foi e sempre será.
A palavra que me interessa é reputação. Antes a gente tinha um veículo, uma mídia tradicional curando e nos apresentando as novidades nos segmentos de interesse. Hoje, a gente se influencia pelo comunicador cujos valores estejam mais alinhados com os nossos, e isso vale para decidir em qual hotel se hospedar na próxima viagem, que prato pedir no restaurante do momento, em qual colágeno investir na hora de bater a meta proteica do dia.
E isso é ruim? Depende. Ao mesmo tempo que as mídias clássicas foram, de forma geral, perdendo tanto sua relevância quanto a sua reputação, as pessoas começaram a desejar uma conexão mais íntima com quem as influencia. Lá em 2005, eu não sabia bem para quem eu escrevia porque nem abertos a receber cartas estávamos. Hoje, leio críticas, elogios, declarações de amor, aprendo, me inspiro, tiro ideias, levo bronca, conheço bastante bem o perfil de quem me acompanha e considero minhas trocas essenciais para seguir fazendo esse trabalho que, de certa forma, é personalizado para quem tem interesse em me acompanhar.
A impressão cedeu lugar à tela do celular; o veículo foi trocado pela rede social; a reputação se tornou influência. Generalizando bem, as pessoas em geral ficaram mais imediatistas e até rasas na hora de se informar, mas seguem batendo a meta das grandes marcas na hora de vender bolsa, ou seja, nada de muito novo no front.
Nesta seção de consumo, a edição comemorativa de um ano vai abordar o último – mas não menos interessante – assunto levantado por vocês: como desenvolver um olhar treinado. A essa altura, entendo que minha maneira de editar, escolher, curar seja um artifício cobiçado. Muitas são as mensagens que recebo com dizeres como “o que a Barbara escolheria?”.
Uma honra, me envaideço e agradeço, mas sobre isso o que posso dizer é que escolher precisa ser um processo pessoal. Não acredito que eu possa, e deva, compartilhar com terceiros minha maneira particular de olhar, já que qualquer olhar apurado passa, de certa forma, pelo autoconhecimento. O que eu fiz nada mais foi que entender quem eu era ou gostaria de ser para então traduzir esse entendimento para táticas de escolha que justifiquem e endossem o meu jeito de viver e me comportar.
Treinar o olhar passa por um processo que vem de dentro para fora, mas que logicamente pode ser alimentado de fora para dentro também. Entenda por fora tudo aquilo que amplia a experiência humana. Assistir a filmes, ouvir música, ler livros, visitar exposições de arte, viajar, entrar em contato com processos criativos originais em geral sempre amplia nosso repertório de fora para dentro e nos ajuda a apurar gosto, a criar repertório original, a pensar a partir de outros pontos de vista.
Costumo dizer que o que me influencia é a maneira do outro se relacionar tão intimamente com algo que aquilo me toca e automaticamente passo a desejá-lo também. Nosso objeto de desejo não é a coisa em si, é a relação pessoal com a coisa. Mais uma prova de que o olhar se apura a partir de uma viagem, lisérgica e profunda, para dentro da gente.
















Bárbara, preciso confessar: li todo o seu texto 3 vezes. Ele está magnífico! Bárbaro! Parabéns! osso pedir mais e mais textos?
Seu olhar e expressão muito me impactam - especialmente a coerência entre o interior e o exterior. Parabéns pelo primeiro ano da newsletter.
Feliz aniversário, Barbaridades! Bárbara, para além do conteúdo (que é sempre riquíssimo), eu amo como vc escreve e se descreve. Um deleite te ler, sempre. Vida longa à news!